Eu fico emocionado. Chego a deixar lágrimas recolhidas no canto dos olhos com coisas simples que simbolizam efeitos imensos: um abraço apertado, um olhar que dura mais de dois segundos, um copo de cerveja que nunca se esvazia, um grito histérico de uma prima que não se vê há alguns anos, um peru de natal, uma saudade que ficou de alguém que você deixou do outro lado do oceano, uma mulher que se torna presidente do país...A vida da cidade pequena é esquecida, desdeixada e algumas vezes desrespeitada. Não é intocável pelo capital nem pelo lucro, mas esquiva-se, em muitas medidas, da rigidez das relações verticalizadas por tantos interesses. Escapa da agrura do interesse e da performance. Foge da palidez nata das máscaras e da polidez das palavras. A vida que se faz distante das cifras escancaradas faz-se melhor pelo sol forte e pela abundância dos afetos e das horizontalidades criadas pelo cuador de café. Geralda é um nome quase masculino. Mas em Jequitibá, a terra que me faz feliz, torna-se sinônimo perdido, sem interesse entre macho e fêmea, entre ser ou entre ter. Nesta terra que reúne uma família, o gênero não é confundido, mas esquecido. Tornam-se paradoxos necessários e felizes. No meio das faltas, das falhas e defeitos, o encontro resplandece e suprime o incólume. Faz reviver tentativas acertadas que a nostalgia resiste em deixar viver. Do lado de cá do oceano e do lado de lá, sobrevive uma dor saudável, de existência sem hierarquia, sem referências bibliográficas, sem bolsas de estudos. Sobrevive pelo sabor do amor, pela beleza das mãos que cerram-se em apertos sinceros com outras mãos. Aquelas mãos que se despedem em todo tempo mas que nunca se vão de todo. Daquelas que não se quer largar. Essas que insistem velozmente e certeiras em permanecer no primeiro lugar, me fazendo lembrar insistentemente que são elas o melhor motivo para acreditar. Em todos os novos anos vale começar assim: com um sentimento que ultrapassa a dureza do capital e que supera suas mentiras e limitações a partir do uso daquilo que o amedronta e o destrói, o estar juntos, unidos não pela perfeição plástica das coisas, mas pelas incertezas que nos fazem andar lado a lado, sem maior nem menor, mas iguais. É lindo ver uma mulher alcançar o magistral poder federativo. Emociona-me finalmente sentir que meu mundo capital não consegue resistir à insistência. Supera esta emoção a reclusão íntima de um mundo que não existe na televisão, feito de corpos imperfeitos com rugas, olheiras, banhas e peidos fétidos. Um mundo de verdade, que cospe na cara de uma sociedade vendida ao photoshop e subalterna à cultura da Revista Caras. Aqui onde estou existe a felicidade. Se um dia alguém quiser arriscar a usar um selo dos correios, posso enviar a morada.
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