O ato político é uma ação presente em todas as culturas, manifesto em diversos níveis e formas. É impossível falar de qualquer privilégio de uma cultura sobre a outra. No antropológico, todas elas encontram-se no mesmo patamar de dinâmica. A ação política, o ato, no entanto, pode variar. É válido pensar que este ato não deixa de ser menos político se fosse feito de uma forma em uma cultura e de outra numa diferente. Dizer que o sujeito feudal viveu uma época desprivilegiada em relação ao sujeito cyborg é tergiversar contra a própria antropologia. Não há menos ou mais privilégios. Há o tempo de cada sujeito e de cada acontecimento. Para cada um deles e a partir da sua cultura, a experiência transcultural sócio-tecnológica tem o mesmo valor. Mas essa significação antropológica pode não ter o mesmo efeito se pensarmos uma ação do ponto de vista da política. Enquanto cultura todos estão certos e todos estão errados. Já do ponto de vista da política, dentro da cultura há de se pensar que as ações deste cunho são realizadas apenas com algumas similaridades.
Se comem gafanhotos ali ou buchado de bode acolá, de menos importa do ponto de vista da sociologia, ou até poderia importar. Mas se do lado de cá apunhalam inocentes em defesa de projetos hegemônicos e do lado de lá disparam contra brancos circuncidados que ameaçam a instauração de uma “nova raça”, a ação política deve ser uma só: a defesa do direito à vida, à dignidade enquanto ser humano qualquer. Instinto animal? É quase piegas, mas é por aqui.
Esse projeto não deve ser hipócrita. Não paliativo. Não impossível. Rezar uma missa que inclua minorias étnicas, discriminadas e estereotipadas não é um ato nem cultural nem político. Não é cultural por que criar liturgias específicas discrimina e destaca o grupo discriminado. É paliativo-cultural. Não é um ato político por que não repercute, apenas camufla a informação e a mobilização. É parte de um “embelezamento organizado do feio, como invólucro decorativo do brutal” que acaba por camuflar a continuidade de um processo semelhante pelo qual a “nova” tendência tenta contrapor-se (Cf.Marcuse). É paliativo quando a Igreja e o Estado criam espaços de "inclusão" destas minorias em círculos isolados. A antropologia vai dizer que tantos negros, mulheres, gays, pobres e ricos são diferenciados por aquilo que cada grupo, que cada hegemonia instituiu e não há certo, não há errado, há aspectos culturais próprios. A sociologia diria a mesma coisa (ou não) e prolongaria o discurso suscitando uma reflexão sobre a ação política do homem em favor do homem (ou não). Inclusão que partisse não da cultura sem privilégios, mas da indiferenciação sócio-política. Pode-se pensar que seria esse o papel do Estado e não da Igreja. Nem um nem outro fará desse projeto algo realizável. Igreja e Estado são duas entidades diferentes-iguais. Parceiros. Casados. Unicelulares. Se uma se originou primeiro, deu origem à segunda para viverem e complementarem-se. A Igreja contribui na condução de uma cultura estandardizada para que o Estado possa governá-la com mais facilidade. Das duas nascem leis, padrões, proibições e o controle. Não nego avanços, mas não desprezo os interesses. Há projetos que quase dão certo. Um deles é o de religar! Projeto religioso, projeto econômico e bélico. Ação cultural ou política? Se o mundo vive em culturas diferentes é preciso religá-lo na criação de uma única cultura para que viva-se na cidade da utopia: uma só economia, um só partido, um só deus e um só canal de TV! Todos reunidos em Conpenhagem. Glória a deus! A esta cultura já chamaram de consumo! A sério?
Para religar busca-se tecnologia, orações e a guerra. “É urgente criar uma aldeia global macluhniana onde todos tenham um deus, seja este metafísico, virtual ou de grife”. Seja pela corrente de oração ou pelas ondas da Internet. É preciso religar para controlar. É preciso religar para consumir. Objetos, conceitos, ideais, esperanças e pessoas. Interessa consumir.
Tornar a sociedade um oikos sempre foi o desejo central de qualquer hegemonia, tanto o de Constantino quanto o de Bush. Religar pela aberturas de estradas, religar pelo Pai Nosso, religar pela lipoaspiração, religar pelo Facebook. Fazer comunicar para religar. E religar a comunidade global numa contínua interação entre diferenças que acabam por despluralizar-se e unirem-se numa única sociedade, igualitária, consumidora e livre. Em rede.
E o sujeito que consome Prada, reza a Ave-Maria e troca as fotos do seu perfil virtual sente-se religado. Pertence. Está no mundo. Está salvo. O sujeito que tem um culto especial aos sábados meio-dia também pertence, está no mundo e está salvo. O quem tem a missa em horário nobre também. A dona de casa que recebe a bolsa-família também pertence, está no mundo e está salva. Aleluia! Fazem parte de uma rede, que liga-os, que globaliza-os, mas que os aprisiona. Ouço um antropólogo me dizer que quando é cultural “tudo é válido. Não é para interferir, nem relativizar”. Mas enquanto social, não sei ao certo.
Andá lá fazer uma “manif” desligada. Desligar a TV, o celular, o computador. Desligar as fábricas e desligar o relógio. Desligar a chapinha, a EDP, a Cemig, a Light. Desligar as máquinas de café e todos os multibancos. Desligar o microfone do padre e o twitter dos deputados.
Vou rezar.
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