Entrou no banheiro. Parou em frente ao
espelho. Fixou o olhar na sua imagem refletida. Reparou bem à volta
dos olhos, na curva da sobrancelha e pensou: Decididamente, você
não é um deles. E sabes bem o porquê. Cheiras tu mal e
teu cabelo é despenteado. Tuas roupas são escusas. Teus cadarços,
frouxos. Tua língua é embolada. Tua boca, podre. Teu pênis,
flácido. És esforçado meu filho, eu sei. Mas não trata-se do seu
esforço. Tal é sem efeito para os fins que se destinam. Ao menos
irá chegar onde não cheguei. Não por falta de lugar, mas por
anteceder todo o meu risco. Coragem não te coloca onde pensas tu
estar. És descamisado. Tuas cores não combinam e não dão
caimento. Tua forma desequilibra toda métrica. Não chegarás à
sê-lo. De qualquer forma não deixe para trás seus motivos tão
piedosos. Seja bom suficiente para não falhar ao teu compromisso.
Resta dizer que tu não és nem grande nem melhor. Em nada. Antes de
mais, és possuidor de uma timidez dissimulada. A falta de elegância
faz de ti um ser de palavras traduzidas. E a abundância de acanho
torna-te cada vez mais fugaz. Quanto mais acreditas tu no teu
tirocínio, mais asnático te tornas. És uma farsa completa, sem
preço, sem peso e sem alma. Viva a vida, sorte à miséria.
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