08 February, 2012

Dois cigarros acesos. Um apagado. Eram cinco. Dois não fumam. Três preferem Billy Preston, um opta por ver a lua e o último não se sabe, está preso no banheiro. Dois conversam sobre um, enquanto três comentam sobre futebol. Dois combinam coisas e dizem adeus. Sobram três. Dois conversam. Um observa. Três em silêncio. Um levanta e esquiva-se. Dois riem e fazem brindes. Três são dois lá e um lá. Dois não voltam mais. Um também não. Ficam dois. Fecha-se a porta. Cinco, dois,  três, um, dois.

29 January, 2012

Teletelas de Orwell e fanfarras de Sigur Rós para constranger o frio mal-falado de Lisboa. Telefones surdos à espera de mensagens em branco para assustar a falta do que falar. Bombons viajados e cigarros brancos para aumentar o tom da cor da dor. E cobras de pano e flores de sabonete para enfeitar seu corpo infeliz. Livros esparramados e casacos antigos para manter minha memória neutra. Um beijo para Júlia. Reclusa sem-opção. Santa por engano. Amante interrompida.

16 January, 2012



Entrou no banheiro. Parou em frente ao espelho. Fixou o olhar na sua imagem refletida. Reparou bem à volta dos olhos, na curva da sobrancelha e pensou: Decididamente, você não é um deles. E sabes bem o porquê. Cheiras tu mal e teu cabelo é despenteado. Tuas roupas são escusas. Teus cadarços, frouxos. Tua língua é embolada. Tua boca, podre. Teu pênis, flácido. És esforçado meu filho, eu sei. Mas não trata-se do seu esforço. Tal é sem efeito para os fins que se destinam. Ao menos irá chegar onde não cheguei. Não por falta de lugar, mas por anteceder todo o meu risco. Coragem não te coloca onde pensas tu estar. És descamisado. Tuas cores não combinam e não dão caimento. Tua forma desequilibra toda métrica. Não chegarás à sê-lo. De qualquer forma não deixe para trás seus motivos tão piedosos. Seja bom suficiente para não falhar ao teu compromisso. Resta dizer que tu não és nem grande nem melhor. Em nada. Antes de mais, és possuidor de uma timidez dissimulada. A falta de elegância faz de ti um ser de palavras traduzidas. E a abundância de acanho torna-te cada vez mais fugaz. Quanto mais acreditas tu no teu tirocínio, mais asnático te tornas. És uma farsa completa, sem preço, sem peso e sem alma. Viva a vida, sorte à miséria.

21 December, 2011


Antes que tudo adormeça, eu continuo calado. Silêncio, silêncio, si-lên-cio. Olho para os lados antes de sair do quarto. Confirmo se meu caminho está livre. Não quero encontrar com ninguém. Observo, observo, ob-ser-vo. Escolhi ignorar por excelência e manter-me indiferente ao que interessa desviando minha atenção com frivolidades sociais que caem bem a todas as pessoas incapacitadas. Desconverso, desconverso, des-con-ver-so. Prefiro escamotear-me entre as pausas para evitar que meu sujeito seja obrigado a comprometer-se com qualquer outro que seja menos que eu. Indiferença, indiferença, in-di-fe-ren-ça. Meço palavras, economizo os gestos e poupo nos olhares. O copo com água cai no chão e o barulho do estilhaçar do vidro barato atormenta o pássaro que está preso na antiga gaiola que pertenceu ao meu tio. Ele faz sons estranhos. Há uma imensa dor. O frenesi dura pouco. O pássaro aquieta-se e volta a piar o canto costumeiro. Não me importa, não me importa, não-me-im-por-ta! É assim que dura o tempo do meu cuidado.  

13 December, 2011


Do lado de fora ele observa os sons que a casa faz. Desconfia que pode ser descoberto. Ele é alto, corpo atlético, de jogador de futebol. Formou-se por obrigação e agora vive a vagar como um flâneur sem multidão. Não pode se esconder nem fugir. Está a olhos dados, à vista de qualquer transeunte por que um dia resolveu amar desmedidamente. Não escreve cartas, nem bilhetes, muito menos e-mail ou sms. Faz a ronda pessoalmente. Acredita que a vigilância remedia a falta que não sabe que sente. São 3 horas da manhã e a luz do quarto está acesa. Luz azul. Televisão ligada. Na mão direita, uma lanterna. A esquerda está empunhada contra o peito, na direção do coração. A pracinha está quieta e escura. Ouço sua respiração. A janela fecha-se bruscamente e um calafrio lhe sobe desde os pés. Está tudo quieto. A luz se apaga. Amanhã há choro e lamentação. Há desespero de um sentimento indecente capaz de provocar a ira  dos que o rodeiam. Não há dolosidade. Há insurgências descontroladas. Surgem da posse que se mistura ao espírito titânico da ansiedade e da ausência de uma certeza, seja ela qual for. Ao voltar para o lado de fora onde habita, avista uma figura humana que não o assusta, conforta-o. Faz lembrar Vítor, um parente distante do qual nutre afeições. Quando tenta abrir a boca para falar qualquer coisa, engasga-se com um soluço. O vulto desaparece e ele continua a caminhada.  

12 December, 2011

Não, ela nunca foi feliz do jeito que você imaginou que deveria ser. Sim, ela rejeitou tudo o que lhe foi oferecido através da oferta e da gratidão. Talvez, sim talvez, ela tenha desistido do amor para estar perto da sua síntese e deste encontro permanecer fiel ao seu caráter desmedido de rancor e raiva. Exprime-se pelas esquinas com palavras corridas, faladas com os olhos desviados.Violenta-se com tons altivos, agressivos, desconfiados e histéricos a fim de calar sua fabilidade de mulher traída. Não resiste a esta afetividade inversamente despropositada dos conselhos da moralidade mais comum. Ela agarra-se em pedaços de pedras retiradas do seu coração fatiado para manter-se na superfície que lhe resta. Está cercada de moinhos que trituram, trituram e trituram os últimos suspiros guardados para o sono pesado do cansaço noturno. Cegou-se pelo movimento repetitivo da angústia e do medo que veio junto com a perda. Acende um cigarro e solta um bafo forte de alívio. Fuuuuuuuuuu! Ali na terceira sala do segundo hall de entrada, senta-se mas não consegue cruzar as pernas com a elegância de outrora. Está quase velha. Encurva-se para ouvir as vozes e os gestos eletrônicos que a anestesiam. Olha com atenção redobrada e desprega-se. Um capítulo a mais, uma lágrima recolhida, um abraço perdido. Saca do bolso um dobrão de prata e um pequeno alfinete de metal, herança da sua avó paterna. Fixa o pensamento e procura alguma lembrança que a faça sucumbir diante do desgaste que lhe recai. Deita com braços cruzados para dormir. Ressona. Volta a sonhar e a viver.

15 February, 2011

O ato político é uma ação presente em todas as culturas, manifesto em diversos níveis e formas. É impossível falar de qualquer privilégio de uma cultura sobre a outra. No antropológico, todas elas encontram-se no mesmo patamar de dinâmica. A ação política, o ato, no entanto, pode variar. É válido pensar que este ato não deixa de ser menos político se fosse feito de uma forma em uma cultura e de outra numa diferente. Dizer que o sujeito feudal viveu uma época desprivilegiada em relação ao sujeito cyborg é tergiversar contra a própria antropologia. Não há menos ou mais privilégios. Há o tempo de cada sujeito e de cada acontecimento. Para cada um deles e a partir da sua cultura, a experiência transcultural sócio-tecnológica tem o mesmo valor. Mas essa significação antropológica pode não ter o mesmo efeito se pensarmos uma ação do ponto de vista da política. Enquanto cultura todos estão certos e todos estão errados. Já do ponto de vista da política, dentro da cultura há de se pensar que as ações deste cunho são realizadas apenas com algumas similaridades.

Se comem gafanhotos ali ou buchado de bode acolá, de menos importa do ponto de vista da sociologia, ou até poderia importar. Mas se do lado de cá apunhalam inocentes em defesa de projetos hegemônicos e do lado de lá disparam contra brancos circuncidados que ameaçam a instauração de uma “nova raça”, a ação política deve ser uma só: a defesa do direito à vida, à dignidade enquanto ser humano qualquer. Instinto animal? É quase piegas, mas é por aqui.
Esse projeto não deve ser hipócrita. Não paliativo. Não impossível. Rezar uma missa que inclua minorias étnicas, discriminadas e estereotipadas não é um ato nem cultural nem político. Não é cultural por que criar liturgias específicas discrimina e destaca o grupo discriminado. É paliativo-cultural. Não é um ato político por que não repercute, apenas camufla a informação e a mobilização. É parte de um “embelezamento organizado do feio, como invólucro decorativo do brutal” que acaba por camuflar a continuidade de um processo semelhante pelo qual a “nova” tendência tenta contrapor-se (Cf.Marcuse). É paliativo quando a Igreja e o Estado criam espaços de "inclusão" destas minorias em círculos isolados. A antropologia vai dizer que tantos negros, mulheres, gays, pobres e ricos são diferenciados por aquilo que cada grupo, que cada hegemonia instituiu e não há certo, não há errado, há aspectos culturais próprios. A sociologia diria a mesma coisa (ou não) e prolongaria o discurso suscitando uma reflexão sobre a ação política do homem em favor do homem (ou não). Inclusão que partisse não da cultura sem privilégios, mas da indiferenciação sócio-política. Pode-se pensar que seria esse o papel do Estado e não da Igreja. Nem um nem outro fará desse projeto algo realizável. Igreja e Estado são duas entidades diferentes-iguais. Parceiros. Casados. Unicelulares. Se uma se originou primeiro, deu origem à segunda para viverem e complementarem-se. A Igreja contribui na condução de uma cultura estandardizada para que o Estado possa governá-la com mais facilidade. Das duas nascem leis, padrões, proibições e o controle. Não nego avanços, mas não desprezo os interesses. Há projetos que quase dão certo. Um deles é o de religar! Projeto religioso, projeto econômico e bélico. Ação cultural ou política? Se o mundo vive em culturas diferentes é preciso religá-lo na criação de uma única cultura para que viva-se na cidade da utopia: uma só economia, um só partido, um só deus e um só canal de TV! Todos reunidos em Conpenhagem. Glória a deus! A esta cultura já chamaram de consumo! A sério?

Para religar busca-se tecnologia, orações e a guerra. “É urgente criar uma aldeia global macluhniana onde todos tenham um deus, seja este metafísico, virtual ou de grife”. Seja pela corrente de oração ou pelas ondas da Internet. É preciso religar para controlar. É preciso religar para consumir. Objetos, conceitos, ideais, esperanças e pessoas. Interessa consumir.

Tornar a sociedade um oikos sempre foi o desejo central de qualquer hegemonia, tanto o de Constantino quanto o de Bush. Religar pela aberturas de estradas, religar pelo Pai Nosso, religar pela lipoaspiração, religar pelo Facebook. Fazer comunicar para religar. E religar a comunidade global numa contínua interação entre diferenças que acabam por despluralizar-se e unirem-se numa única sociedade, igualitária, consumidora e livre. Em rede.

E o sujeito que consome Prada, reza a Ave-Maria e troca as fotos do seu perfil virtual sente-se religado. Pertence. Está no mundo. Está salvo. O sujeito que tem um culto especial aos sábados meio-dia também pertence, está no mundo e está salvo. O quem tem a missa em horário nobre também. A dona de casa que recebe a bolsa-família também pertence, está no mundo e está salva. Aleluia! Fazem parte de uma rede, que liga-os, que globaliza-os, mas que os aprisiona. Ouço um antropólogo me dizer que quando é cultural “tudo é válido. Não é para interferir, nem relativizar”. Mas enquanto social, não sei ao certo.

Andá lá fazer uma “manif” desligada. Desligar a TV, o celular, o computador. Desligar as fábricas e desligar o relógio. Desligar a chapinha, a EDP, a Cemig, a Light. Desligar as máquinas de café e todos os multibancos. Desligar o microfone do padre e o twitter dos deputados.

Vou rezar.

09 January, 2011

As sete horas da manhã já estava acordado, pronto para entrar no primeiro ônibus que o levasse até o centro da cidade. Sentou na segunda fila, no assento 14, ao lado da janela. A partida não representou muita coisa. Era o tempo de deixar coisas mortas no lugar dos mortos. Durante a viagem, boca calada, pensamento amansado, imaginação fertilizada. Vai a caminho de onde não quer conhecer. Lugar descalço. Espaço indeciso. Tempo doente.

02 January, 2011

Eu fico emocionado. Chego a deixar lágrimas recolhidas no canto dos olhos com coisas simples que simbolizam efeitos imensos: um abraço apertado, um olhar que dura mais de dois segundos, um copo de cerveja que nunca se esvazia, um grito histérico de uma prima que não se vê há alguns anos, um peru de natal, uma saudade que ficou de alguém que você deixou do outro lado do oceano, uma mulher que se torna presidente do país...A vida da cidade pequena é esquecida, desdeixada e algumas vezes desrespeitada. Não é intocável pelo capital nem pelo lucro, mas esquiva-se, em muitas medidas, da rigidez das relações verticalizadas por tantos interesses. Escapa da agrura do interesse e da performance. Foge da palidez nata das máscaras e da polidez das palavras. A vida que se faz distante das cifras escancaradas faz-se melhor pelo sol forte e pela abundância dos afetos e das horizontalidades criadas pelo cuador de café. Geralda é um nome quase masculino. Mas em Jequitibá, a terra que me faz feliz, torna-se sinônimo perdido, sem interesse entre macho e fêmea, entre ser ou entre ter. Nesta terra que reúne uma família, o gênero não é confundido, mas esquecido. Tornam-se paradoxos necessários e felizes. No meio das faltas, das falhas e defeitos, o encontro resplandece e suprime o incólume. Faz reviver tentativas acertadas que a nostalgia resiste em deixar viver. Do lado de cá do oceano e do lado de lá, sobrevive uma dor saudável, de existência sem hierarquia, sem referências bibliográficas, sem bolsas de estudos. Sobrevive pelo sabor do amor, pela beleza das mãos que cerram-se em apertos sinceros com outras mãos. Aquelas mãos que se despedem em todo tempo mas que nunca se vão de todo. Daquelas que não se quer largar. Essas que insistem velozmente e certeiras em permanecer no primeiro lugar, me fazendo lembrar insistentemente que são elas o melhor motivo para acreditar. Em todos os novos anos vale começar assim: com um sentimento que ultrapassa a dureza do capital e que supera suas mentiras e limitações a partir do uso daquilo que o amedronta e o destrói, o estar juntos, unidos não pela perfeição plástica das coisas, mas pelas incertezas que nos fazem andar lado a lado, sem maior nem menor, mas iguais. É lindo ver uma mulher alcançar o magistral poder federativo. Emociona-me finalmente sentir que meu mundo capital não consegue resistir à insistência. Supera esta emoção a reclusão íntima de um mundo que não existe na televisão, feito de corpos imperfeitos com rugas, olheiras, banhas e peidos fétidos. Um mundo de verdade, que cospe na cara de uma sociedade vendida ao photoshop e subalterna à cultura da Revista Caras. Aqui onde estou existe a felicidade. Se um dia alguém quiser arriscar a usar um selo dos correios, posso enviar a morada.

28 December, 2010

Era de dar gosto vê-lo comer. Dois braços fracos com voz forte e seca. Faz bem ficar de pé enquanto ele come. Voraz e repentino enquanto o Padre-Nosso pequenino era rezado no fundo da sala de piso batido. Sórdido e feliz. Defendido por anátemas tristes, duros e bem qualificados pelo pecado. Em cada garfada que ele dava, sentia-se um gozo ameno cortado pelo canto dos galos pretos que olhavam atenciosos de cima daquele cupim. Misturava-se entre as desgraças desalmadas e o excesso de higiene. Entre as ejaculações precoces forçadas pela distância e pela pobreza que rasga o que resta do peito e do sonho. 

04 October, 2010

As letras estão ali, todas juntas, separadas por pequenos pontos invisíveis. Unidas por essa mesma distância. As letras agarradas na expressa hipótese de que não exista outra revolução. Uma ideia que se embaraça quando a luz está apagada, e aparece no escuro, no negro, no preto, no mal, na imigração,na falta de vistos de residência, no inimigo, no ladrão, na popozuda, no pobre, no burro, no incompetente, no trolha, no selvagem, no primitivo, no frágil, no rico, no podre, no hipócrita, no idiota, no espectacular, no simulado, no colorido, no pixel, no virtual, no imaginado, no livre uso, no partilhar, no emprestar, no devolver, no consumir, no ejacular, no que alugar, no cartão de crédito, no que ganhar, no vencer, no cobrar caro, no proibir, no punir, no vigiar, no prender, no piratear, no fugir, no escapar, no sobreviver, no mentir, no matar, no fingir, no negociar, no dissuadir, no comungar, no regressar, no permanecer, no círculo até que a luz se acenda.

12 September, 2010

Fiquem calmos! Os otimistas e os heterosexuais chegaram. Fiquem calmos! os críticos de arte já estão a postos para nos libertar da luxúria da low culture. Fiquem calmos! Os estrategistas do markentig já pensaram uma solução para a sua rede social predileta. Fiquem todos calmos! Os economistas estão a especular uma solução para Moçambique. Fiquem mais calmos ainda. Os Partidos Piratas vão eleger deputados a quem sempre esperamos. Fiquem calminhos. O Pato Donald já foi substituído.

03 August, 2010

Vamos falar e escrever sobre Prostituição Masculina; Drogas legais e ilegais, Pornografia, Seitas e Satanismo; Androgenia Pós-Moderna e Poliformia Humana, Cibercrimes e Propriedade Intelectual; Lixo, Freeganismo e Respigadores; Hegemonia Feminina...Vamos?

21 July, 2010

Homenagem a mim mesmo. Homenagem à princesa que dormia. Homenagem à Maria Bethania e Fernando Pessoa. Homenagem à minha alma lavada. Com afecto e com lixívia. 

Aqui:

02 May, 2010

Sinto-me traído por mim mesmo. Uma sabotagem que fica repleta de futilidade. Uma efemeridade que faz doer. A foto de um tronco reconhecido. Uma quase parte de mim. Um desespero que sobe pela garganta. Sem gritos, sem choros. Com a solidão aliviada por um não-futuro. Estado de amor paralisado. Impressão de águas lavadas pelo diabo que me carrega. Dor da escolha. Do fatal. E do normal. Eu falo em japonês a noite e durante o dia eu me calo. Faz cócegas estranhas. Negras e pretas. Quiprocó.